Aos poucos ela ia desnudando-se das restrições impostas pelas verdades absolutas. Não precisava mais de regras de quando sorrir e quando calar.
Aos poucos ela ia reaprendendo a
dançar e cantar, desafinadoramente, alto e rir-se disso. Não precisava mais de
motivos para gargalhar e rodar.
Aos poucos ela ia revendo seus
valores espiritais e não questionando sua sufocada fé. Não precisava mais
sofrer e chorar para ir em busca do seu Deus.
Aos poucos ela ia revivendo seus
momentos de andar de pé no chão e cabelos desalinhados. Não precisava mais de
autorização
para sentir na pele a força da terra
e do vento.
Aos poucos ela ia desfrutando do já
esquecido prazer de ter prazer com aqueles a quem amava, a sua volta. Não precisava
mais esconder a alegria da generosidade e doação.
Aos poucos ela ia olhando-se no
espelho sem medo das marcas deixadas pelo tempo vivido. Não precisava mais
temer as palavras rudes e grosseiras acerca das bobagens de seu coração
criança.
Aos poucos ela ia declarando todo seu
amor a vida e as venturas de uma noite estrelada. Não precisava mais de outros
olhos para ver a beleza escondida por trás do sol e da lua.
Aos poucos ela ia sonhando seus
sonhos: reais ou absurdos, mas tão somente sonhos seus. Não precisava mais
encolher-se da sua verdadeira identidade.
Aos poucos ela ia limpando-se de todo
o limo que sufocava sua alma, tirando-lhe a leveza. Não precisava mais de asas
para voar pelo céu da imaginação.
Aos poucos ela ia reconhecendo-se
naquela que um dia fora e que caminhava lentamente em sua direção. Não
precisava mais pranteá-la como se morta para sempre estivesse.
Aos poucos, bem aos poucos, ela
vestia-se e perfumava-se para reverenciar mais um dia vivido. Não precisava
mais de razões para ser feliz.

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