quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Renascer


Aos poucos ela ia desnudando-se das restrições impostas pelas verdades absolutas. Não precisava mais de regras de quando sorrir e quando calar.


Aos poucos ela ia reaprendendo a dançar e cantar, desafinadoramente, alto e rir-se disso. Não precisava mais de motivos para gargalhar e rodar.

Aos poucos ela ia revendo seus valores espiritais e não questionando sua sufocada fé. Não precisava mais sofrer e chorar para ir em busca do seu Deus.

Aos poucos ela ia revivendo seus momentos de andar de pé no chão e cabelos desalinhados. Não precisava mais de autorização
para sentir na pele a força da terra e do vento.

Aos poucos ela ia desfrutando do já esquecido prazer de ter prazer com aqueles a quem amava, a sua volta. Não precisava mais esconder a alegria da generosidade e doação.

Aos poucos ela ia olhando-se no espelho sem medo das marcas deixadas pelo tempo vivido. Não precisava mais temer as palavras rudes e grosseiras acerca das bobagens de seu coração criança.

Aos poucos ela ia declarando todo seu amor a vida e as venturas de uma noite estrelada. Não precisava mais de outros olhos para ver a beleza escondida por trás do sol e da lua.

Aos poucos ela ia sonhando seus sonhos: reais ou absurdos, mas tão somente sonhos seus. Não precisava mais encolher-se da sua verdadeira identidade.

Aos poucos ela ia limpando-se de todo o limo que sufocava sua alma, tirando-lhe a leveza. Não precisava mais de asas para voar pelo céu da imaginação.

Aos poucos ela ia reconhecendo-se naquela que um dia fora e que caminhava lentamente em sua direção. Não precisava mais pranteá-la como se morta para sempre estivesse.

Aos poucos, bem aos poucos, ela vestia-se e perfumava-se para reverenciar mais um dia vivido. Não precisava mais de razões para ser feliz.

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