quinta-feira, 2 de abril de 2015

Desespero





Não havia um lugar qualquer em que eu pudesse chamar de meu.
Sentia na pele a inconveniência da minha presença.
Teu olhar, tuas ações e omissões me levavam ao nada.
Queria-me transparente e invisível esforçava-me para ser.
Sentava-me na varanda, o mais silenciosamente possível.
E tecia longos e complicados bordados.
Não comia, para não me teres na tua frente.
Usavas das piores armas: o olhar e o desprezo.
Culpada sem saber do quê, encolhia-me.
Mil pensamentos me assolavam a alma.
Não tinha para onde ir, não havia fuga possível.
Assim mantinha-me quase que imóvel.
Ao final da tarde, sentava-se a minha frente,
Vagarosamente, tirava os sapatos e as meias.
E descalço caminhavas, no raio da minha visão,
Sobre a grama verde, clamando pela energia da terra.
Não olhavas para mim, talvez por não suportar,
Toda a tua tamanha crueldade.
Lágrimas teimavam em afrontar-me ou afrontar-te.
Eu era a energia negativa que te assombrava.
Nem mesmo sabia qual o mal havia te feito.
Mas havia uma sombra de ódio a me cobrir.
O ódio de haver descoberto a farsa que eras.
Não podias conviver assim desmascarado,
Sob o risco de ver tuas deslealdades reveladas.
O sarcasmo com que falavas dos teus amigos.
A amnésia conveniente com que sempre viveras.
As palavras bem pensadas e bem faladas que usavas
Em todas as ocasiões, te tornando quase um deus.
Que raramente eram ditadas pelo coração.
Eu, ali, subjugada pela tua ira.
Era a única prova da tua vida de fracassos,
E não podias conviver com isso.
Então, torturavas-me com ameaças veladas ou não.
Impotente, aceitava o açoite que me matava pouco a pouco.
Então, um dia te foste sem sequer dizer adeus.
Sozinha, perseguida pelo pânico, não dormia.
Olhava-me no espelho e já não havia qualquer reflexo.
Finalmente, tinhas conseguido transformar-me em ninguém.
Sentava-me no chão, colocava a cabeça entre os joelhos,
Cobria a cabeça com minhas tremulas mãos,
E gritava assustadoramente, sem soltar som algum.
Já a beira da total insensatez, mãos vieram a me socorrer.
Mãos bondosas, mãos desconhecidas, mãos amigas.
Ergueram-me, banharam-me e vestiram-me,
De dignidade, de honra e de força.
Pude, então, ver que era vítima da tua vil estupidez.
E assim, quebrei as correntes com que me mantinhas.
E hoje estou livre das garras com que rasgastes o meu corpo.
E tu estás livre do quê?




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...