Não havia um lugar qualquer em que eu pudesse chamar de meu.
Sentia na
pele a inconveniência da minha presença.
Teu olhar,
tuas ações e omissões me levavam ao nada.
Queria-me
transparente e invisível esforçava-me para ser.
Sentava-me
na varanda, o mais silenciosamente possível.
E tecia
longos e complicados bordados.
Não comia,
para não me teres na tua frente.
Usavas das
piores armas: o olhar e o desprezo.
Culpada sem
saber do quê, encolhia-me.
Mil
pensamentos me assolavam a alma.
Não tinha
para onde ir, não havia fuga possível.
Assim
mantinha-me quase que imóvel.
Ao final da
tarde, sentava-se a minha frente,
Vagarosamente,
tirava os sapatos e as meias.
E descalço
caminhavas, no raio da minha visão,
Sobre a
grama verde, clamando pela energia da terra.
Não olhavas
para mim, talvez por não suportar,
Toda a tua
tamanha crueldade.
Lágrimas
teimavam em afrontar-me ou afrontar-te.
Eu era a
energia negativa que te assombrava.
Nem mesmo
sabia qual o mal havia te feito.
Mas havia
uma sombra de ódio a me cobrir.
O ódio de
haver descoberto a farsa que eras.
Não podias
conviver assim desmascarado,
Sob o risco
de ver tuas deslealdades reveladas.
O sarcasmo
com que falavas dos teus amigos.
A amnésia
conveniente com que sempre viveras.
As palavras
bem pensadas e bem faladas que usavas
Em todas as
ocasiões, te tornando quase um deus.
Que
raramente eram ditadas pelo coração.
Eu, ali, subjugada
pela tua ira.
Era a única
prova da tua vida de fracassos,
E não podias
conviver com isso.
Então, torturavas-me
com ameaças veladas ou não.
Impotente,
aceitava o açoite que me matava pouco a pouco.
Então, um
dia te foste sem sequer dizer adeus.
Sozinha,
perseguida pelo pânico, não dormia.
Olhava-me no
espelho e já não havia qualquer reflexo.
Finalmente,
tinhas conseguido transformar-me em ninguém.
Sentava-me
no chão, colocava a cabeça entre os joelhos,
Cobria a
cabeça com minhas tremulas mãos,
E gritava
assustadoramente, sem soltar som algum.
Já a beira
da total insensatez, mãos vieram a me socorrer.
Mãos bondosas,
mãos desconhecidas, mãos amigas.
Ergueram-me,
banharam-me e vestiram-me,
De
dignidade, de honra e de força.
Pude, então,
ver que era vítima da tua vil estupidez.
E assim,
quebrei as correntes com que me mantinhas.
E hoje estou
livre das garras com que rasgastes o meu corpo.
E tu estás
livre do quê?

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