quarta-feira, 8 de abril de 2015

ORFÃO DE EMOÇÕES


 
 
 
 
 
 
Eram camas enfileiradas lado a lado
Exatamente iguais, com lençóis brancos,
Não de um branco qualquer, imaculadamente brancos.
Órfãos, por opção, eram tratados como iguais,
Muito embora iguais não fossem.
Havia os mais inteligentes, os altos, os bonitos,
Os com talento para a música, os esportistas,
Os de família abastada e os mais humildes.
Havia, também, os outros.
Aqueles que não se distinguiam por nada.
Os que a sorte não dera nenhum talento.
A estes, restava apenas o anonimato.
Para se destacar, precisava usar de algumas artimanhas.
Nem sempre de forma honesta e integra.
Assim passavam-se os anos, eles cresciam,
Defendendo-se da maneira que conseguiam.
Havia muito rigor e punições sem haver maus tratos.
Também, não havia beijos, abraços ou demonstrações de afeto.
O contato físico, qualquer que fosse, era proibido.
E assim, sendo só mais um, ele foi moldando sua imagem.
De tal forma, encobriu suas arestas, que chegou a esquecê-las.
Tornou-se um orador sensato, que sabia o que queriam ouvir.
Não falava com o coração, não havia qualquer sentimento
Em suas palavras, mesmo quando lágrimas saiam de seus olhos.
Era tudo um jogo que aprendera ao longo dos anos.
Não nutria amor por quem quer que fosse, senão a si mesmo,
E aos seus objetivos de destacar-se entre tantos.
Com suas palavras cuidadosas e suas atitudes ensaiadas
Foi vivendo a vida num teatro de faz de conta.
Não via nada que lhe obrigasse a tomar uma atitude desagradável.
Não ouvia nada que lhe obrigasse a tomar um partido.
Ignorou sofrimentos, lágrimas e até a morte.
Tudo para não ter que tirar a máscara tão cuidadosamente construída.
Era admirado, respeitado e todos lhe tinham afeto.
Mas, quando só, sem que ninguém, pudesse vê-lo ou ouvi-lo.
Deixava a inveja, a mesquinhez, a malícia e suas artimanhas,
Tomarem forma e saírem de seu corpo como se outro fora.
Não tinha amigos, era tudo uma farsa, eram peões a serem usados.
Gargalhava com desdém daqueles que há pouco abraçara
E chamara de irmão, de amigo do peito, companheiro.
Não havia uma só pessoa que escapasse da sua ironia vil.
Pois, na verdade, continuava sendo aquele menino invisível.
Nada construíra na sua vida, vivera de iludir e mentir.
Nunca secara uma lágrima, nem mesmo dos mais íntimos.
Se passava a mão pelo rosto molhado de alguém,
Era porque seria a atitude correta naquele momento,
Sem sentimentalismos ou emoções, era o que se esperava dele.
Fingiu, feriu, magoou, traiu, tudo impunimente,
Graças ao seu poder de persuasão, que treinara
Exaustivamente, por toda a vida.
Na verdade, era um fracasso em todos os sentidos,
Pois sem sua armadura protetora, era só mais uma
Cama imaculadamente arrumada.
E assim passam-se os dias, sendo cada dia,
Uma apresentação teatral a ser recitada com perfeição.
E sente uma alegria interior imensa por saber-se
Senão um vitorioso, mas quem coloca os vitoriosos a seus pés.
Tolos, como eu, que acreditaram nessa farsa humana.
Vampiro de almas e espíritos que se deixam sangrar.
Ri-se a vontade, pois em nada crê, mas há de chegar o dia
Em que lhe será apresentada a conta de todos os açoites
Infringidos  aos que viveram ao seu lado como amigos e amores.
Pois a Deus não consegues enganar e Este não há de te perdoar.

 

 

 

 

 

 

 

 
 



 

 

 

 


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