Ele olhava
as lanternas do carro se afastarem com seu brilho vermelho.
Dobrou na
primeira esquina à direita e depois sumiu na escura noite.
Não havia
ninguém na rua, só o vento frio e um chuvisco a lhe molhar.
Olhou o relógio
na torre da Igreja e os ponteiros estavam no 10 e no 4,
Não sabia ao
certo que horas eram, mas com certeza já era bem tarde.
No rosto
tinha um largo sorriso que há muito não sorria, por falta de ser.
Tinha os
olhos inundados de lágrimas que vinha armazenando faz muito.
E aos
poucos, sem permissão, elas foram fugindo pelo rosto emagrecido.
Como um rio
lamacento, passavam carregando toda uma vida corroída.
Com o dorso
das mãos desviava seu caminho formando linhas brancas,
No rosto
sujo de poeira, solidão e humilhação da sua condição indigente.
E assim ia
se formando um desenho surreal e abstrato de rara beleza.
Ali, em pé,
na fria noite de abandono olhando o que já não via, estava ele.
Caricato dos
desmazelos de uma história sem destino, no riso desdentado.
Seu coração
acelerado queria pular do peito e dançar enlouquecidamente.
Ela parara o
carro e lhe pedira informações, com a voz suave e educada.
Nos seus
olhos não havia medo ou desprezo, só o fitava pedindo ajuda.
Percebera,
de imediato, que era uma senhora fina de palavras bonitas.
E o tratara
como, já não lembrava a quanto tempo, fora um dia tratado.
O receio que
esperava dela, tomou conta de si e gaguejava ao explicar.
Surpreso que
estava por aborda-lo assim tão de repente, sem avisa-lo.
Sequer olhou
para a coberta que lhe envolvia o corpo, na falta de casaco.
Agia
naturalmente e perdida pedia ajuda a quem sempre estivera perdido.
Explicou-lhe
diversas vezes, tamanha era a emoção de sentir-se alguém.
Ela agradeceu
e se foi na noite, sob o olhar entorpecido de um nada.
Ela foi
adiante, em direção ao seu destino, sem saber o que se passava.
Ele
deitou-se em sua cama de papelão, puxou seus lençóis de jornal e,
Como há
muito não fazia, agradeceu a Deus pelo anjo que ele lhe enviara.
Sem asas e
sem auréola, mas que o tratara com a dignidade já perdida.
Dormiu
feliz, sonhou com as lanternas do carro se afastando lentamente.
Por uma
noite foi feliz e por uma noite sentiu-se parte da humanidade.

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