domingo, 11 de outubro de 2015

CIDADANIA ROUBADA


 
Ele olhava as lanternas do carro se afastarem com seu brilho vermelho.
Dobrou na primeira esquina à direita e depois sumiu na escura noite.
Não havia ninguém na rua, só o vento frio e um chuvisco a lhe molhar.
Olhou o relógio na torre da Igreja e os ponteiros estavam no 10 e no 4,
Não sabia ao certo que horas eram, mas com certeza já era bem tarde.
No rosto tinha um largo sorriso que há muito não sorria, por falta de ser.
Tinha os olhos inundados de lágrimas que vinha armazenando faz muito.
E aos poucos, sem permissão, elas foram fugindo pelo rosto emagrecido.
Como um rio lamacento, passavam carregando toda uma vida corroída.
Com o dorso das mãos desviava seu caminho formando linhas brancas,
No rosto sujo de poeira, solidão e humilhação da sua condição indigente.
E assim ia se formando um desenho surreal e abstrato de rara beleza.
Ali, em pé, na fria noite de abandono olhando o que já não via, estava ele.
Caricato dos desmazelos de uma história sem destino, no riso desdentado.
Seu coração acelerado queria pular do peito e dançar enlouquecidamente.
Ela parara o carro e lhe pedira informações, com a voz suave e educada.
Nos seus olhos não havia medo ou desprezo, só o fitava pedindo ajuda.
Percebera, de imediato, que era uma senhora fina de palavras bonitas.
E o tratara como, já não lembrava a quanto tempo, fora um dia tratado.
O receio que esperava dela, tomou conta de si e gaguejava ao explicar.
Surpreso que estava por aborda-lo assim tão de repente, sem avisa-lo.
Sequer olhou para a coberta que lhe envolvia o corpo, na falta de casaco.
Agia naturalmente e perdida pedia ajuda a quem sempre estivera perdido.
Explicou-lhe diversas vezes, tamanha era a emoção de sentir-se alguém.
Ela agradeceu e se foi na noite, sob o olhar entorpecido de um nada.
Ela foi adiante, em direção ao seu destino, sem saber o que se passava.
Ele deitou-se em sua cama de papelão, puxou seus lençóis de jornal e,
Como há muito não fazia, agradeceu a Deus pelo anjo que ele lhe enviara.
Sem asas e sem auréola, mas que o tratara com a dignidade já perdida.
Dormiu feliz, sonhou com as lanternas do carro se afastando lentamente.
Por uma noite foi feliz e por uma noite sentiu-se parte da humanidade.


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