quarta-feira, 7 de outubro de 2015

TALVEZ


A cama estava tão grande! Não, ela não aumentara em nada.
Era a tua ausência nela que me fazia acha-la assim enorme.
Olhava para o lado, onde deveria estar o teu corpo deitado,
E nada havia para que eu pudesse acariciar com minhas mãos.
Teu corpo colado ao meu, em perfeita e fantástica harmonia.
Teu ressonar profundo que ia se acalmando com meu abraço,
Até se tornar um leve respirar calmo e tranquilo na noite fria.
E eu ficava a te olhar, velando teu sono com olhos de paixão.
E assim, passado um tempo, dormia ao teu lado serenamente.
Vez por outra te mexias, te afastavas e sem mesmo acordar,
Puxavas-me para junto de ti, para ficar envolto no meu amor.
Sentias-te seguro como um menininho nos braços maternos.
Sentias-te seguro como um homem nos braços da sua mulher.
Sentias-te seguro como um pássaro a voar livre pelo céu azul.
Não sei se como menininho, como homem ou como pássaro,
Foste-te para bem longe, livre das amarras dos nossos corações.
Meus olhos já não te alcançavam e não ouvias meus lamentos.
Mas não fui a tua procura, não mais o faria. Deixar-te-ia solto.
Para que buscasse outros amores em outros lugares quaisquer.
E entre lençóis amassados, tu me encontrarias na hora da volta.
Deitarias na cama grande, como se dela nunca tivesses saído,
Puxaria-me para junto de si, sem saber ao certo quem era eu.
Verias os sulcos, formados em meu rosto por todas as lágrimas,
Que foram choradas enquanto andavas livre pelo teu mundo.
Fingiras não notar e com teu rosto maroto, sorririas para mim.
Talvez eu te sorrisse de volta ou talvez encontrasses só lençóis.
E no emaranhado da cama desfeita, tu ficarias a nos procurar.
Porem, a tristeza e a solidão, transformara o nós em tu e eu.
Teus olhos já não me alcançariam e não ouviria teus lamentos.
Sairias a minha procura, de forma alucinada por todos os lugares,
Sem nunca conseguir me encontrar, a não ser no teu passado.
No mesmo lugar aonde me deixaras um dia, sem nem um adeus.
Galopando sobre o lombo de uma loba, havia refeito meu caminho.
E nesse novo caminho não havia mais espaço para ti junto de mim.
Entretanto, poderia ser que me puxasses e lá me encontrasses.
Por ter te esperado na certeza que um dia, cansado, voltarias.
E meus braços te envolveriam como a volta do filho pródigo.
Prepararia uma festa, mataria um carneiro e convidaria a todos,
Anunciando a tua volta, arrependido e pedindo o meu perdão.
Meu coração borbulhando de paixão esqueceria o tempo ausente,
E continuarias meu menino, meu homem e meu pássaro errante,
O tu e eu nunca desfeito, seria o nós agora para todo o sempre.
E a cama grande teria o exato tamanho para ocupar nossas vidas.




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