sábado, 17 de janeiro de 2015

Louca



Desdentada e maltrapilha,
Ela anda, sem rumo,
Pelas ruas da sua vida.
Não tem para onde ir.
Não tem quem a espere.
Assim, desenganada,
Ri-se de si mesma
Como que louca fosse.
Olha os olhos dos transeuntes
E lembra-se que já foi um deles.
Não sabe há quanto tempo.
Também já não importa.
Agora, diverte-se com as ilusões.
Que um dia a vestiram,
Despindo-a de todas as venturas.
Foi tola, foi enganada e tripudiada.
Hoje escabelada e desdenhada
Faz-se de tola, engana e tripudia.
Seu jeito desajeitado de andar,
Falar, sorrir e dançar,
Fazem-na poderosa.
Pois não podem mais nada tirar-lhe.
Despida está de tudo que fora
E assim, louca, não a querem pilhar.
Encontrou, finalmente,
A liberdade de não ser importante
Para ninguém, a não ser a si mesma.

Carmen Mattos

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Anjos de papel


Dois anjos caídos do céu, na exatidão em que meus dias precisavam deles.
Anjos de papel, que se desdobram para me trazer ao rumo, para me trazer paz.
Sem asas, sem magia, anjos em forma de pessoas.
Que brigam, xingam e na constância do dia a dia se desentendem, comigo.
Eu tenho dois anjos de papel.
Almas nobres, tão peculiaridades dentro de si mesmos.
Um que se veste de paciência e segura minha mão sempre que é preciso.
Outro que se arma de rebeldia e se afasta sempre que se faz necessário para que nossas vidas voltem a se encontrar.
Eu tenho dois anjos de papel dourado, da cor mais nobre do espírito, onde o simples fato de existirem irradia luz que me contagia.
Protegem-me contra tudo que possa me ferir, incluindo eles mesmos.
Enquanto um me dá conselhos apenas dizendo que está tudo errado ou que eu fiz tudo errado, o outro se rebela e se afasta dizendo que tudo continua errado.
E me dão tempo para pensar...
Entretanto, sempre que nos afastamos, quase sem explicações, sinto o perfume no ar deixado na imensidão da distância causada.
E todas as noites, antes de dormir, eu agradeço pelos meus dois anjos, que mesmo feitos de papel, mesmo contagiados pelos defeitos humanos, não me abandonam em momento algum.
E assim, a vida toma cor, som, cheiro e brilho.
Tudo por causa dos meus dois anjos feitos de papel dourado...

Com o coração nas mãos, faltou-me a coragem.
Aquele adeus que eu nunca pude dar...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Quando deixei de me importar


No momento em que tu sumistes
E me deixastes no vazio distante,
Eu deixei de me importar contigo.
Naquela tarde
Em que descobri aquilo que me escondias
Eu deixei de me importar contigo.
Quando eu precisava de ti e preferias ficar sozinho
Eu deixei de me importar contigo.
Em tantos momentos
Busquei-te no meio da multidão.
Por tantas vezes implorei através das minhas atitudes
Que tu pudesse me deixar entrar
Quando via a porta cerrada da tua vida.
No momento em que passei a me importar comigo,
Eu deixei de me importar contigo.
E neste momento tudo começou a fazer sentido. 
Com menos tu,
Mais eu,
Mais vida. 
E agora tu reclamas que eu não me importo contigo...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Indiferença



Cansada...
Esta é a melhor palavra que poderia definir este momento sem vida, em que percebo que meu limite está rente a meus olhos e na palma da minha mão.
Não há nada mais a ser feito.
Os gritos ecoaram no meio da escuridão e no sono tranquilo que jazia sobre meus pensamentos.
Se existia alguma forma de apagar tudo e de limpar toda a mágoa que agora reside em meu peito, talvez não a quisesse.
Talvez seja neste momento que eu perceba tudo aquilo que és e toda a importância dada na razão de segundos.
Sempre ouvi dizer que a vida é feita de escolhas e aprendi a respeitá-las, no momento em que apago toda a ilusão que se criou no meio das expectativas.
Simplesmente apago as memórias vazias e, inclusive, tudo aquilo que me fez mal.
A indiferença começa a tomar forma, como já havia sido feito muitas e muitas vezes no decorrer da vida.
Em um passado nem tão distante.
Eu quis o momento, eu quis tanto, que no meio de tudo o que me rodeia neste momento em que aprendestes a ser indiferente comigo, tropeço no mesmo sentimento que aprendi a nutrir por ti.
Já não há certo e errado.
Já não há escolhas e tampouco caminhos a serem perseguidos juntos.
Lentamente tudo vai ficando turvo e já não posso mais ouvir a tua voz.
E os gritos que ecoavam no meio da escuridão, quase sem querer, afastaram-se de onde meu coração poderia tocar.
Já não te ouço e não te escuto.
Restando no meio da intesidade existente na multidão, palavras ferozes que já não podem me alcançar.
Ou quem sabe a falta delas...

Fim



Entre cacos que me ferem
Tento encontrar pedaços de mim mesma.
São tantas coisas ao meu redor
Que não me encontro em lugar algum.
Quisera ser uma só
E sendo uma, ser inteira.
Mas fiz-me pedaços de tantas
Que já não sei quem sou.
Mascaras e armaduras cobrem meu corpo
E retira-las tornou-se pesaroso
Sem forças ou sem vontade
Vou postergando a minha descoberta
O medo me assombra
De saber-me vazia quando todas
As facetas, que foi minha vida,
Quando estiver despida do que sou.
Eu sei que não sou esta que se apresenta
Diante dos olhos que me veem
Quem sou? Não sei.
Busco nos cacos, descobrir.
Quais as peças que me completam
Quais as peças que roubei
Do quebra cabeça da vida
Perdida, me vejo numa contínua busca.
Da alma que existe em mim
Coberta com a burca
Que costurei com os fios das lembranças
Maltrapilhas que acumulei no passar dos tempos
Foram traições inesperadas
Das horas que se passavam
Num embalar desafinado
Não queria estar no meu lugar
Não queria sobrepor-me a mim mesma
Era tudo tão simples
Até o momento que quebrei-me por inteiro
Para fazer de mim uma verdade
Que não consigo encontrar
Sob as máscaras e armaduras
Que me cobriram por tanto tempo
Já não lembro se um dia fui alguém
Como tantos alguéns que cruzam meu caminho
Só vejo pedaços desconexos
Que me sufocam sem me completar.

Carmen Mattos

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Elos


Tudo o que eu posso é pedir desculpas. Por não ser o planejado e por tentar carregar sozinha o peso das minhas frustrações ao invés de lhe pedir auxílio para me guiar. O que eu posso é dizer que a proporção a que tudo chegou não fazia parte dos planos e que jamais quis lhe magoar. O que sentes talvez não estivesse ao meu alcance na medida em que o que senti não estivesse ao seu. E assim, sem um compreender o outro, quebramos um elo dourado, da cor dos nossos sonhos. Errei tentando acertar, errasses tentando acertar. E nesse vai e vem de emoções e de toda a confusão que se formou, no meio de um assunto banal, talvez tenhamos perdido aquilo tudo o que nos unia. Ou talvez tenhamos aprendido a conhecer um ao outro de forma mais profunda. Talvez o que era ouro transformou-se em pó. Ou talvez a corrente que nos unia tenha virado aço, onde cada parte sabe exatamente a sua função, caminhando de mãos dadas, um segurando o outro para não ruir. Um elo sem fim, um conhecendo o outro, tornando-nos mais fortes em meio às tempestades. Onde o peso não é mais carregado por um, mas por dois que buscam o caminho do conhecimento, da aceitação, em uma evolução constante. 
E tudo o que me questiono agora é o talvez. 
Palavra meticulosamente planejada, que me deixa sem respostas suas agora. 
E enquanto espero, revivo passo a passo, lentamente, tudo que fez valer a pena.
E tudo aquilo que ainda o faz!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Faltaram as Rosas



Ela segurou sua blusa no ar,
Olhou para trás,
Viu seu passado
E deu um sorriso radiante.
Dobrou a blusa e a pôs na mala.
Assim, peça por peça,
Foi traçando um novo futuro.
Malas feitas, cabeça erguida,
Caminhou altiva para o desconhecido.
Chegou numa bonita casa
E logo começou a transforma-la num lar.
Trabalhava sem parar,
Eram pequenos detalhes
A darem vida na sua vida.
Nunca parou até perceber,
Que não havia mais paredes,
Para enfeitar.
Que não havia mais música,
Para ouvir.
Que não havia mais palavras doces,
Para lhe embalar.
Quando foi a última vez que recebera um presente
Sem quê nem pra quê?
Quando foi a última vez que abraçara
Um buquê de rosas?
Quando foi a última vez que uma mão
Procurara a sua espontaneamente.
Ela segurou sua blusa no ar,
Olhou para trás,
Viu seu passado, 
E deu um sorrido triste,
Dobrou a blusa e a pôs na mala.

Carmen Mattos

Não esperes


Não esperes que eu compreenda tudo, tão de repente.
Não esperes que eu aceite tudo, tão de repente.
Há muitos caminhos andados e muitas histórias de vida para absorver. 
Não esperes que tua honestidade hostil não deixe marcas enquanto te escuto falar daquilo que tampouco me agrada.
Não esperes uma palavra amiga e nem tempestades, enquanto tudo o que preciso é tempo para respirar e deixar a mente pedir calma.
Não esperes que quando eu leio tudo o que leio, vejo tudo o que vejo e escuto de ti, não tenha dúvidas de onde deveria estar.
Neste momento, enquanto a mente trabalha absorvendo teu passado, não esperes carinho e compreensão,   raiva ou rancor.
Simplesmente não espere nada além de tempo.
Teu passado intenso demais me assusta e assombra na medida em que tudo o que leio compactua com tuas palavras.
Só te peço isso...
Não esperes...
Porque de tanto esperar, vi-me dentre palavras desagradáveis, que só o tempo poderá curar.
Por isto, meu amigo, o que só posso te pedir depois que as cartas foram jogadas à mesa é que não esperes. 
Porque quando te ofereci ajuda sincera, fui de peito aberto, e a negativa de tuas palavras refletiram que teu passado anda de mãos dadas com o futuro e com o presente.
Eu já aprendi a não esperar nada, além de palavras que podem me machucar.
Simplesmente não esperes, porque eu já deixei de esperar...

sábado, 10 de janeiro de 2015

As horas




Mãos atadas no meio da escuridão que ilumina meu quarto tão sem vida. 
Já não existem pensamentos que residam nesse vão que se formou dentro de mim mesma.
Imersa nesse vazio que se formou e em todas as vezes que acreditei que pudesse escapar, fixo o olhar no peito que sangra.
Toda a dor que peguei para mim para não ver você sofrer, subitamente transborda meu corpo em chamas e se transforma em lágrimas que apagam tudo o que pudesse sentir.
Eu havi pedido tão pouco e me perdido na ilusão de que era suficiente.
Eu havia esperado muito, que o relógio já pulsava em uma triste melodia em que segundos se transformavam em horas.
Havia tanto ainda a ser feito, tanto a ser construído, tanto a ser consertado...
Já não existem razões para que minhas mãos se desatem e tampouco vontade para que isso aconteça.
Simplesmente me entreguei.
Eu, o escuro do quarto, o teto, as paredes e esse velho relógio que sufoca toda a necessidade de ver as horas passarem nesse momento de embriaguez...


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