domingo, 28 de junho de 2015

Era uma vez...


Após tantos sonhos ruins e pesadelos, acreditou numa vida onírica.
Voltando a infância, via sapos se transformarem em príncipes.
E num final feliz para sempre, depois do “era uma vez...”.
O que pensara que era verdade, seu dogma, era somente um dogma.
E suas palavras cruéis e sem sentido, lhe trouxeram a realidade.
Mordaz e ferino, envolto e envolvido nas inverdades e maldades,
Levaste-a para um mundo que já conhecia um déjà vu.
Alquebrada pelo inesperado, pelo incompreendido,
Viu-se vagando por campos desconhecidos...  estéreis.
Sozinha, maltrapilha de sentimentos, inerte as intrigas,
Introvertida na sua dor, observava seus santos de barro.
Pouco a pouco, irem ruindo numa pilha de pó amorfo.
Eram tantas as perdas, tantos amores traiçoeiros.
Que o que era uma pilha se transformou num monte e,
Este monte numa montanha, até cobrirem toda sua visão.
Cega, caminhava sem saber para onde ir, tateando esperanças.
Acordaria! Fora só mais um desatino de um amor enlouquecedor.
Mas quando acordou, o viu nos braços de outra e quis morrer.
Suas lágrimas ainda corriam por sua face e ele já nem lembrava seu nome.
Era um passado tão presente dentro de si, tão ardente na sua paixão,
Mas era só um passado, sequer lembrado com palavras brandas.
Ria-se dela com desdém, humilhava sua dor publicamente.
Tudo o que fizera não fora o suficiente, queria destruí-la por completo.
E ela sem conhecer o seu próprio pecado, olhava-o com compaixão.
Perguntava-se o porquê, o que fizera para lhe causar tanto ódio?
Causava-lhe pena vê-lo assim sem sentimentos, sem nunca ter amado.
Tal qual Narciso, só via a própria imagem e por ela se apaixonou.
Toda sua afeição era dirigida a si próprio, senão era descartada.
Pessoas e amores eram facilmente substituíveis, quando lhe convinha.
Só conhecia suas próprias dores, que sequer eram dores.
Tinha um dicionário próprio aonde colocava e retirava palavras.
Considerava-se um paradigma e como tal, tornara-se um tirano.
Ela, aos longos dos anos, foi descobrindo tudo isso,
Mas, paradoxalmente, ainda o amava intensamente.
E imagina-lo em outros braços, outra cama, outro amor,
Torturava lhe dia e noite, num contínuo sofrer desesperado.
Encolhida em seu pesar, só pedia para despertar e vê-lo ao seu lado.
Aí, com mansidão, tocaria seu corpo adormecido e o beijaria lentamente.
Sorriria para si mesma lembrando-se de seu devaneio surreal.
E voltaria a dormir aconchegada em seus braços.
Mas o seu maior desespero era saber-se acordada.

Escrita por Carmen Mattos

 

A Dor do Coração


Ela olhava, desolada, para o coração entre suas mãos.
Como o tratara mal! Como o machucara tantas vezes!
Envolvido em sangue, já quase sem forças.
Lágrimas escorriam de seus olhos e respingavam sobre ele.
Em movimentos centrífugos, formavam ondas incertas.
Sequer podia acaricia-lo, ele não a perdoava.
Ela era a culpada de todo o seu sofrimento, dos martírios.
Fizera escolhas erradas, ferindo-o de forma letal.
Havia cicatrizes antigas, já quase apagadas.
Havia cicatrizes recentes, doídas, sangrentas.
Havias aquelas que só gotejavam, havia as que jorravam.
Pedia-lhe perdão e ele lhe respondia no compasso da sua dor.
Via um ferimento profundo, feito a ferro e fogo.
Que como cachoeira, escorria entre seus dedos,
E caia retumbante no chão frio da insensatez.
A sua volta, havia outros ferimentos menores,
Estes escorriam com maior descrição, silenciosamente.
E qual destes iria fazer com que ele silenciasse?
Ela não sabia, pois todos eram mortais.
Um o faria morrer instantaneamente, os outros lentamente.
Ou, por vingança, ele a faria padecer tanto quanto ele,
Deixando-a em agonia por tempo demais?
Queria traze-lo de volta ao peito e com cuidado, agasalha-lo.
Mas ele não o permitia, queria vê-la a olhar-lhe impotente.
E a cada lagrima sua, mais fraco ele pulsava e mais rápido batia.
Ele já a perdoara tantas vezes, já lhe dera tantas chances.
Agora não mais. Nunca ela o ferira de forma tão vil.
A faca que o transpassava era a maior de todas as infringidas.
Olhava-o e dizia-lhe: também sofro.
Ele impassível, estava imune a dor de seu algoz.
Perdera tanto! Perdera tantos! Perdera tudo!
Restavam-lhe apenas duas mãos, envelhecidas, a lhe segurar.
Elas não poderiam, jamais, lhe restituir as perdas.
Cabia-lhe faze-la compartilhar seu padecimento,
Até o momento final, quando a tortura fosse o último suspiro.
E então, as lágrimas secariam em seu rosto escarnecido,
E seu sangue coagularia entre os dedos, sem bater no chão.
E nesse momento, só nesse momento, seu coração a perdoaria.

Escrita por Carmen Mattos


quinta-feira, 9 de abril de 2015

EMPEÇONHENTAR




Nada é pior que a calúnia.
Ela transforma vítimas em réus.
Certas pessoas possuem esse poder,
Maligno, mortífero, devastador.
Usam seu poder de persuasão,
Usam palavras bem pensadas,
Fortes o suficiente para quebrar
Todo e qualquer argumento.
E assim, matam sua presa,
Sem derramar uma gota de sangue.
Vampiros de almas, destroem.
Vão sugando toda a dignidade,
Toda a honra e a vivacidade.
Nada mais querem que a vitória.
Mesmo que ela seja desnecessária.
É só pelo prazer, pelo poder.
Não lhes basta destruir os sonhos.
Acham pouco as lágrimas choradas,
As noites insones, o amargo na boca.
Acham pouco as humilhações infringidas,
A tortura velada, o constrangimento imposto.
Precisam de mais, precisam destruir o todo.
É o prazer psicopata de presenciar a dor.
E assim o fazem, por nada.
Simplesmente para sentir-se um deus.
E a vítima, cada vez mais vítima,
Vai ficando só, envolta nas palavras cinzas,
Que seu algoz derrama sobre todos.
Aos poucos, forma uma teia impenetrável,
A sufocar a verdade que a vítima traz dentro de si.
E esta, sem forças, chora as ignóbeis sofridas,
Sabendo que só o tempo poderá redimi-la.
Tirar-lhe do cárcere imposto pelo impostor.
Mas, talvez, seja tarde demais,
Nada mais restando, senão as chagas do abandono.
 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ORFÃO DE EMOÇÕES


 
 
 
 
 
 
Eram camas enfileiradas lado a lado
Exatamente iguais, com lençóis brancos,
Não de um branco qualquer, imaculadamente brancos.
Órfãos, por opção, eram tratados como iguais,
Muito embora iguais não fossem.
Havia os mais inteligentes, os altos, os bonitos,
Os com talento para a música, os esportistas,
Os de família abastada e os mais humildes.
Havia, também, os outros.
Aqueles que não se distinguiam por nada.
Os que a sorte não dera nenhum talento.
A estes, restava apenas o anonimato.
Para se destacar, precisava usar de algumas artimanhas.
Nem sempre de forma honesta e integra.
Assim passavam-se os anos, eles cresciam,
Defendendo-se da maneira que conseguiam.
Havia muito rigor e punições sem haver maus tratos.
Também, não havia beijos, abraços ou demonstrações de afeto.
O contato físico, qualquer que fosse, era proibido.
E assim, sendo só mais um, ele foi moldando sua imagem.
De tal forma, encobriu suas arestas, que chegou a esquecê-las.
Tornou-se um orador sensato, que sabia o que queriam ouvir.
Não falava com o coração, não havia qualquer sentimento
Em suas palavras, mesmo quando lágrimas saiam de seus olhos.
Era tudo um jogo que aprendera ao longo dos anos.
Não nutria amor por quem quer que fosse, senão a si mesmo,
E aos seus objetivos de destacar-se entre tantos.
Com suas palavras cuidadosas e suas atitudes ensaiadas
Foi vivendo a vida num teatro de faz de conta.
Não via nada que lhe obrigasse a tomar uma atitude desagradável.
Não ouvia nada que lhe obrigasse a tomar um partido.
Ignorou sofrimentos, lágrimas e até a morte.
Tudo para não ter que tirar a máscara tão cuidadosamente construída.
Era admirado, respeitado e todos lhe tinham afeto.
Mas, quando só, sem que ninguém, pudesse vê-lo ou ouvi-lo.
Deixava a inveja, a mesquinhez, a malícia e suas artimanhas,
Tomarem forma e saírem de seu corpo como se outro fora.
Não tinha amigos, era tudo uma farsa, eram peões a serem usados.
Gargalhava com desdém daqueles que há pouco abraçara
E chamara de irmão, de amigo do peito, companheiro.
Não havia uma só pessoa que escapasse da sua ironia vil.
Pois, na verdade, continuava sendo aquele menino invisível.
Nada construíra na sua vida, vivera de iludir e mentir.
Nunca secara uma lágrima, nem mesmo dos mais íntimos.
Se passava a mão pelo rosto molhado de alguém,
Era porque seria a atitude correta naquele momento,
Sem sentimentalismos ou emoções, era o que se esperava dele.
Fingiu, feriu, magoou, traiu, tudo impunimente,
Graças ao seu poder de persuasão, que treinara
Exaustivamente, por toda a vida.
Na verdade, era um fracasso em todos os sentidos,
Pois sem sua armadura protetora, era só mais uma
Cama imaculadamente arrumada.
E assim passam-se os dias, sendo cada dia,
Uma apresentação teatral a ser recitada com perfeição.
E sente uma alegria interior imensa por saber-se
Senão um vitorioso, mas quem coloca os vitoriosos a seus pés.
Tolos, como eu, que acreditaram nessa farsa humana.
Vampiro de almas e espíritos que se deixam sangrar.
Ri-se a vontade, pois em nada crê, mas há de chegar o dia
Em que lhe será apresentada a conta de todos os açoites
Infringidos  aos que viveram ao seu lado como amigos e amores.
Pois a Deus não consegues enganar e Este não há de te perdoar.

 

 

 

 

 

 

 

 
 



 

 

 

 


sábado, 4 de abril de 2015

VESTIDO RODADO.

                
 

 

     Assim que tocava a campainha,
     Meu coração acelerava,
     Meus joelhos tremiam,
     E eu corria para a porta,
     Com meu vestido rodado,
     Abria e lá estava ele,
     Com toda sua imponência,
     Sua prepotência de senhor da razão.
     Tentava passar por entre suas pernas
    E ele, carinhosamente, me puxava,
     Dizendo: não vais dar um beijo no pai?
     Rapidamente beijava seu rosto
     Na tentativa de sair o mais rápido possível
     Corria para a calçada, sentava-me no meio fio.
     Tapava os ouvidos com minhas pequenas mãos
     E colocava a cabeça entre os joelhos.
     Na vão tentativa de tornar-me invisível.
     Pouco depois começavam os gritos e choros.
    Era sempre a mesma coisa.
     A garotada do prédio ria-se,
     Não sei se de mim, se da cena.
    E aquilo tudo me fazia menor ainda.
    Ele gritava, ela chorava.
     Ela gritava, ele desdenhava.
     E assim passavam-se horas,
     Ou somente minutos,
     Da minha angústia interior.
     Aquela dorzinha lá dentro do peito,
     Dorzinha não de chorar, mas de lamento.
     Assim como começava,
     Sem que eu soubesse o motivo,
     Fazia-se o silencio.
     E no meio das gargalhadas,
     Via as janelas se fechando,
     Com cabeças balançando,
     Em total reprovação.
     Passo a passo, subia as escadas,
     Segurava a maçaneta,
     E meio sem jeito abria a porta.
     A mesa estava servida
    Com a comida predileta dele.
     Sentava-me na pontinha da cadeira,
     E fazia força para engolir, prantos e comida.
     Há quanto tempo vivia isso?
     Tempo demais, para nunca esquecer.
     O odiava por fazer isso conosco,
     A odiava por aceitar que fizesse.
     E temia a Deus por não “Honrar pai e mãe”.
     Os anos se passaram, sempre igual.
     E, ainda hoje, quando ouço gritos,
     Volto aos tempos de outrora,
     Mesmo impassível, sou uma garotinha,
     De vestido rodado, encolhida,
     Sentada no meio fio da vida.

 

 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

VOCÊ SEM MIM

  Você achou que fosse fácil me esquecer.
Você achou que não faria falta.
Você pensou que eu não era ninguém.
E como ninguém me tratou por tempo demais.
Agora, olhas em volta e me vês em toda parte.
E me encontras em lugar algum.
Sente o vazio da minha ausência.
Pensou que seria bom, não foi.
Cercou-se de risadas sem sentido.
Pagou para ter pessoas ao seu redor
Mas eu não estava lá, estava sozinho.
Quem iria sonhar seu sonho contigo?
Quem estaria sempre ao seu lado?
Não vê saída. Terá que retroceder.
Não conseguiste virar a página.
Como fizeste tantas vezes.
Nunca houvera alguém como eu.
É tarde para voltar atrás.
Pulos, graças e brincadeiras tolas
Não podem substituir a mão na mão
A certeza do companheirismo.
Procuraste pelo bolo, pelo carinho.
Não havia nada, conheceste o sabor
De não ser ninguém para ninguém.
Sabor esse que desfrutei em suas mãos.
Perdeu o sonho de uma vida
Pouco a pouco vai desmanchar
As alegrias das coisas feitas.
O som dos pássaros vão se calar,
As flores vão murchar,
Não haverá aroma no ar.
Tudo se perdeu por uma ilusão
Efêmera, falsa, fugaz.
Volta às coisas da qual fugiu.
Brincaste com a felicidade e perdeste.
Achava que iria ganhar, esquecendo
Que o jogo só termina na última rodada.
A saudade vai chegar, fará tudo para apagá-la
Sem obter sucesso em um instante sequer
Pois meu cheiro está impregnado no seu corpo
Olhará o horizonte e me verá, de forma desbotada
Trazendo nas mãos todos seus sonhos e esperanças.
Na sua contumaz prepotência
Negará as lágrimas choradas
Tentará outros carinhos
Tudo será em vão, tudo foi perdido.
Nas palavras não ditas.
Nas lembranças não lembradas.
No desdém do dia a dia.
Na falta de importância do importante.
Agora estou inalcançável
Tal quais as estrelas que iluminam
Tuas noites insones de mim.
Triste figura patética, a me procurar
Em todos os lugares em que passa
Mas nunca haverá de encontrar
Porque lhe dei o meu melhor
Dei-lhe um paraíso
E enlouquecido por palavras vãs
Vive, hoje, no inferno que lhe acompanhará
Por toda a vida, a partir do instante
Que saíste sem sequer dizer adeus.
Abandonada, abandonei
Por um momento tenho piedade.
Mas, é só por um momento,
Nada mais.

Desespero





Não havia um lugar qualquer em que eu pudesse chamar de meu.
Sentia na pele a inconveniência da minha presença.
Teu olhar, tuas ações e omissões me levavam ao nada.
Queria-me transparente e invisível esforçava-me para ser.
Sentava-me na varanda, o mais silenciosamente possível.
E tecia longos e complicados bordados.
Não comia, para não me teres na tua frente.
Usavas das piores armas: o olhar e o desprezo.
Culpada sem saber do quê, encolhia-me.
Mil pensamentos me assolavam a alma.
Não tinha para onde ir, não havia fuga possível.
Assim mantinha-me quase que imóvel.
Ao final da tarde, sentava-se a minha frente,
Vagarosamente, tirava os sapatos e as meias.
E descalço caminhavas, no raio da minha visão,
Sobre a grama verde, clamando pela energia da terra.
Não olhavas para mim, talvez por não suportar,
Toda a tua tamanha crueldade.
Lágrimas teimavam em afrontar-me ou afrontar-te.
Eu era a energia negativa que te assombrava.
Nem mesmo sabia qual o mal havia te feito.
Mas havia uma sombra de ódio a me cobrir.
O ódio de haver descoberto a farsa que eras.
Não podias conviver assim desmascarado,
Sob o risco de ver tuas deslealdades reveladas.
O sarcasmo com que falavas dos teus amigos.
A amnésia conveniente com que sempre viveras.
As palavras bem pensadas e bem faladas que usavas
Em todas as ocasiões, te tornando quase um deus.
Que raramente eram ditadas pelo coração.
Eu, ali, subjugada pela tua ira.
Era a única prova da tua vida de fracassos,
E não podias conviver com isso.
Então, torturavas-me com ameaças veladas ou não.
Impotente, aceitava o açoite que me matava pouco a pouco.
Então, um dia te foste sem sequer dizer adeus.
Sozinha, perseguida pelo pânico, não dormia.
Olhava-me no espelho e já não havia qualquer reflexo.
Finalmente, tinhas conseguido transformar-me em ninguém.
Sentava-me no chão, colocava a cabeça entre os joelhos,
Cobria a cabeça com minhas tremulas mãos,
E gritava assustadoramente, sem soltar som algum.
Já a beira da total insensatez, mãos vieram a me socorrer.
Mãos bondosas, mãos desconhecidas, mãos amigas.
Ergueram-me, banharam-me e vestiram-me,
De dignidade, de honra e de força.
Pude, então, ver que era vítima da tua vil estupidez.
E assim, quebrei as correntes com que me mantinhas.
E hoje estou livre das garras com que rasgastes o meu corpo.
E tu estás livre do quê?




AMANHÃ


Depois de tantos anos passados
Caminho por onde tão bem conhecia
Não me surpreende vê-lo assim descuidado
O mato crescido, flores descoloridas.
O cheiro é de mofo, de abandono.
Entro na casa com paredes descascadas
E sei onde encontra-lo:
Sentado na espreguiçadeira desbotada,
Da varanda empobrecida.
Cercado por dois velhos cães,
Que me abanam o rabo,
Como se nunca dali tivesse saído.
Os olhos apagados miram o horizonte.
Nem notas minha presença,
Tal qual outrora fazias.
Mãos tremulas seguram um caderno.
Sento-me, no chão, ao seu lado.
Levanto minhas mãos, que roçam nas tuas,
E pego o caderno do teu colo.
Não sei bem se para me notares
Ou simplesmente por curiosidade.
Não te mexes, mal escuto tua respiração.
Abro folha por folha e vejo velhas historias
Cobertas com enormes x a esconder detalhes
Folha após folha, todas com a mesma marca.
Marca da estupidez de negar o vivido.
Já quase no final, há escritos intactos.
E neles reconheço pedaços da minha vida,
Alguns borrões, talvez de tuas lágrimas,
Talvez de tinta de uma velha caneta.
O que importa?
Depois disso, só folhas em branco,
Mostrando que nada mais existiu.
Fecho o caderno e o recoloco no mesmo lugar.
Levanto-me com dificuldade,
Os anos também passaram para mim.
Mas não escrevi minha história em lugar algum
Vivi cada momento, chorei cada dor,
Sofri, gritei, rasguei-me por inteiro,
Sem nunca virar uma página,
Como se nada houvesse acontecido.
Encaminho-me para sair e num último instante
Olho para trás e encontro teus olhos a fitar-me
E vagarosamente, uma única lágrima escorre deles.
E essa lágrima faz lembrar-me o quanto chorei por ti,
E como não tiveste piedade nem compaixão por mim.
Volto-te as costas e sigo em direção à saída.
Sei que ali não mais voltarei, nem mais te verei.
Pensei que ao vê-lo assim, alquebrado,
Poderia perdoa-lo de todo o mal que me fizeste.
Mas não fui capaz. As cicatrizes em meu corpo,
Ainda eram chagas abertas, alimentadas.
Pelo desdém, pelas palavras frias e impiedosas.
Com que me abandonastes sem rumo
Quando eu nada tinha além de ti


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

A carta


Ela, incrédula, olhava o envelope em suas mãos.
Tão fora de moda receber cartas!
Sentou-se na poltrona e ficou a alisar aquele papel.
Não sabia o que pensar,
Mil coisas lhe surgiam e logo fugiam.
Abrir e ler, ou rasgar deixando só a imaginação saber
Virava-a de um lado para o outro.
Como cara ou coroa
Ora via seu nome, ora via o outro.
Suas pernas já adormecidas pelo tempo ali sentada
Fizeram-lhe acordar daquele estado catatônico.
Ergue-a contra a luz que vinha da janela
Certificando-se que havia só um pedaço de papel.
Nada além de um pedaço de papel
Com alguns rabiscos em forma de letras.
Vagarosamente, rasgou a lateral
E, ainda em dúvida, não sabia o que fazer.
Ainda havia tempo para picá-la e jogar no lixo.
Ainda havia tempo para deixá-la esquecida ao lado
Ainda havia tempo para desvendar o desconhecido.
Enfim, encheu-se de coragem e retirou as folhas
Eram duas. Não manuscritas.
Que paradoxo, mandar carta, escrita no computador!
Deu vontade de rir, mas pareceria irônico de sua parte.
As folhas cuidadosamente dobradas em três,
Foram abertas e olhadas sem que visse as palavras.
Deitou-as em seu colo,
Jogou a cabeça para trás
Reviveu tempos já esquecidos
Turvou seus olhos impedindo todo tipo de lembrança.
Depois se lembrou da promessa que fizera a si mesma:
De nunca mais permitir-se ser magoada.
De nunca mais deixar de lutar com garra
Pelas suas verdades, suas convicções.
Ergueu a carta e começou a lê-la.
Era um desabafo.
Tanto ódio, tanto rancor, tantas mentiras
Por que havia perdido tempo para escrever-lhe aquilo?
Deu-lhe pena!
Alguém há quilômetros de distância,
Perdera, talvez horas, para escrever-lhe
Coisas ignóbeis, coisas cheias de maledicências.
Seria uma necessidade visceral de atingi-la?
Uma necessidade de livrar-se do mal que lhe envolvia
Desde o dia em que a humilhou, maltratou, magoou
Sem que nenhum motivo real houvesse.
Seria essa culpa que lhe fizera ditar aquelas palavras?
Teve piedade, onde um dia houvera amor.
Já não a atingia mais.
Enquanto ele vivia o inferno do remorso
Ela, agora, vivia a luz da paz de espírito.
Não se culpava mais, não procurava erros não cometidos,
Por muito tempo chorou a injustiça sofrida.
As mentiras ditas e repetidas.
A dor, de tantos anos de verdades virarem pó.
A necessidade, invejosa, de destruí-la.
Passou por tudo isso.
Caiu e levantou-se inúmeras vezes.
Soltou gritos assustadores, em completo silencio.
Brigou com Deus.
Amaldiçoou.
Passeava entre a raiva e a ira.
Mas tudo já passara.
Fora feliz.
Fora invejada.
Fora injuriada.
Fora massacrada.
Mas tudo, fora.
Assim essa carta inesperada,
Só lhe lembrava que vencera.
Quem a lhe escrevera ainda sentia a necessidade de feri-la.
Mas já não era capaz.
Perdera toda a sua força
No momento em que duvidara
Do seu amor, seu companheirismo
Das suas verdades, para crer em outras verdades
Que na verdade, não eram verdades.
Assim como uma bola de ar
Explodiu com a agulha da ingratidão.
E nunca mais poderia encher-se de ar.
Com pesar, amassou as folhas
Levantou-se da poltrona
E jogou a no lixo, junto com outros restos.

Carmen Mattos

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Você sabe?



Você sabe quantas vezes a fizestes chorar nos últimos dias?
Não, nem eu.
Porque ela guarda as lágrimas no peito escondidas para que ninguém a veja sofrer tanto.
Você sabe quantas vezes a fizestes se sentir traída nos últimos tempos?
Não, nem eu.
As poucas vezes em que falou da sua traição a fez com tom ameno, quase angelical.
Você sabe quantos segredos seus ela guarda do mundo?
Não, nem eu.
Porque foram tão poucos que ela compartilhou que já perdi as contas do quanto a questionei sobre isso.
Você sabe a dor que ela carrega com ela?
Não, nem eu.
Porque ela se faz de forte perante o mundo com medo de mais uma rasteira como aquela em que ela foi golpeada por você.
Você sabe a dor de perder um filho?
Não, nem eu.
Mas ela sabe e chora lentamente a sua morte em vida.
Você sabe o motivo das cobras pelo caminho em que ela pisa?
É a sua imagem refletida naquilo tudo que você significou a ela e que lentamente a fez desmoronar e despedaçou a vida dela em pedaços tão miúdos que jamais poderias contar.
Você sabe por que te vejo hoje assim?
Porque não satisfeita com a vida miserável que tinhas, destruíste a vida da sua mãe de coração, aquela que lhe deu abrigo e trouxe você ao mundo sufocando o seu pranto todas as vezes em que precisasses.
Mesmo não vendo todas as lágrimas, todas as feridas e as manchas de sangue deixadas pela caminho, achas que tens razão quando dizes que é certo roubar a vida que não lhe pertence.
Você sabe o que ganhou com isso?
Não, ainda não podes compreender a dor de perder um filho e tampouco a dor de perder uma mãe que nunca foi sua.
Mas justamente por ser a minha eu lhe digo:
“Você sabe exatamente aquilo que fez e nenhuma crença ou nenhuma oração durante as noites mal dormidas poderão lavar as manchas de sangue de suas mãos”.
E por mais lágrimas que ela derrame em virtude de seu egoísmo e narcisismo, jamais reconquistarás a única mãe que lhe quis e que sempre lhe abrigou.
E isso, minha cara, não há perdão no mundo que lhe devolva e continuarás a sempre caminhar no vazio que te transborda, imitando exatamente a mãe que é sua e que nunca lhe quis.

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