terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

ME DESCULPE SE...

Me desculpe se a minha paz de espírito te agride.
Me desculpe se caminho, sem me ferir, por entre as pedras que colocas no meu caminho.
Me desculpe se lutei e venci minhas batalhas sem nunca pisar ninguém.
Me desculpe se entre trapaças e traições, nunca conseguiste sonhar teu sonho.
Me desculpe se, ignorando as evidências, sempre te estendi a mão para te fazer uma pessoa melhor.
Me desculpe se não trago um sorriso pronto nem palavras ensaiadas, mas conquisto corações.
Me desculpe se as minhas verdades são maiores que as tuas mentiras.
Me desculpe se te cuidei, te abracei e te amei sem perceber que alimentava o pior em ti.
Me desculpa se tentei te fazer alguém, que nunca fostes, para que pudesses andar pelas ruas.
Me desculpe se escondi todas as tuas mesquinharias por acreditar que encontrarias a luz.
Me desculpe se não tenho a tua voz mansa nem tuas palavras de sabedoria, mas tenho a voz que sai da alma.
Me desculpe se quando sorrio meus olhos brilham e fico iluminada trazendo a sombra para junto de ti.
Me desculpe se sou essência e tu carência.
Me desculpe se chorei a tua perda quando caçoavas de mim pelas costas.
Me desculpe se minha felicidade te dói como uma chaga aberta.
Me desculpe se sempre fui o melhor que havia em ti.
Me desculpe se todas as vezes em que me mataste, veio o Pai e me ressuscitou.


Dentro de ti


Eu te percebo em um olhar.
Percebo todas as feridas que carregas dentro de ti
Escondidas atrás de um sorriso qualquer.
Percebo-te dizendo chega ao não se aproximar
Percebo-te descrente em tudo.
Eu te percebo sendo apunhalado pelas costas
Mas te ajudo a virar-te antes do golpe fatal
E te percebo cambalear entre tantas desilusões.
Eu vejo em ti um gosto de quero mais
Um gosto de esperança
Um quê de ousadia.
Eu vejo em ti uma mudança de vida,
De atitudes,
De prioridades.
Eu percebo olhando nos teus olhos
Que aquele que tanto fazia e nada pedia
Cansou de esperar.
Eu vejo em ti a coragem!
E,
Assim,
Olhando nos teus olhos,
Eu percebo dentro de ti,
A esperança.
A certeza que dias melhores virão
Carregada no peito daquele
Que não mais espera,
Que se orgulha das decepções que te fizeram enxergar,
Depois de tanto,
Aqueles que nunca te perceberam...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Amigos








Andava altiva pela estrada de pedras pontiagudas.
Os pés descalços não sentiam mais dor.
Cicatrizes profundas os havia libertado.
Um leve sorriso de paz, lembrou-a de outras caminhadas.
Quando a morte seria uma bem vinda companhia.
Então, vindo dos céus ou vindo de Deus,
Mãos bondosas lavaram-na com as águas da Jacuba.
Flores dos jardins de Blumenau a enfeitaram.
E águas salgadas de Camboriú fecharam as feridas.
Ainda podia ouvir as cantigas com que embalaram seu sono.
Ombros amigos, fortes, que a ampararam quando caia.
Podia sentir o toque leve e macio com que a confortavam.
E os sussurros de doces palavras a alimentar sua alma.
Por vezes secaram suas lágrimas, por vezes choraram juntos.
Fizeram-na rir em meio a escuridão de sua alegria perdida.
Fizeram-na forte quando só queria perder-se de si mesma.
E assim, hoje, era um retalho costurado com fio de amor
Por todos aqueles que a retiraram dos escombros da vida.
E em sua pele estava tatuada a imagem daqueles rostos
A lhe mostrar que anjos existem e nós os chamamos de...
AMIGOS.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Renascer


Aos poucos ela ia desnudando-se das restrições impostas pelas verdades absolutas. Não precisava mais de regras de quando sorrir e quando calar.


Aos poucos ela ia reaprendendo a dançar e cantar, desafinadoramente, alto e rir-se disso. Não precisava mais de motivos para gargalhar e rodar.

Aos poucos ela ia revendo seus valores espiritais e não questionando sua sufocada fé. Não precisava mais sofrer e chorar para ir em busca do seu Deus.

Aos poucos ela ia revivendo seus momentos de andar de pé no chão e cabelos desalinhados. Não precisava mais de autorização
para sentir na pele a força da terra e do vento.

Aos poucos ela ia desfrutando do já esquecido prazer de ter prazer com aqueles a quem amava, a sua volta. Não precisava mais esconder a alegria da generosidade e doação.

Aos poucos ela ia olhando-se no espelho sem medo das marcas deixadas pelo tempo vivido. Não precisava mais temer as palavras rudes e grosseiras acerca das bobagens de seu coração criança.

Aos poucos ela ia declarando todo seu amor a vida e as venturas de uma noite estrelada. Não precisava mais de outros olhos para ver a beleza escondida por trás do sol e da lua.

Aos poucos ela ia sonhando seus sonhos: reais ou absurdos, mas tão somente sonhos seus. Não precisava mais encolher-se da sua verdadeira identidade.

Aos poucos ela ia limpando-se de todo o limo que sufocava sua alma, tirando-lhe a leveza. Não precisava mais de asas para voar pelo céu da imaginação.

Aos poucos ela ia reconhecendo-se naquela que um dia fora e que caminhava lentamente em sua direção. Não precisava mais pranteá-la como se morta para sempre estivesse.

Aos poucos, bem aos poucos, ela vestia-se e perfumava-se para reverenciar mais um dia vivido. Não precisava mais de razões para ser feliz.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Assim...

Escondida atrás de cortinas abertas,
Faço, desfaço, refaço e...  disfarço.
Nas noites inexoravelmente iguais,
O medo enclausura a vida a ser vivida.
O coração majestosamente inundado,
Para o amanhã que não me amanhece.
E no paradoxo do meu sonhar teimoso,
Vejo flores a cortar o chão endurecido.
Desvendo-me para o que um dia fora,
Na nudez das esperanças ressuscitadas.
O reflexo no espelho é daquela que sorri,
Um riso de brandura que caçoa de mim.
Com a paz das ilusões perdidas, me olho,
E meu olhar tem um cheiro de alecrim.
As lágrimas já cansadas, tardam em cair.
E os sulcos por elas feitos em meu rosto,
Hoje servem de caminho para o gracejar.
A musicalidade que há no existir finito,
Liberta os pés do frio aço que me detém.
Alada tal libélula que voa sobre as águas,
Danço a dança da liberdade recuperada.
Assim...
Escondida atrás de cortinas abertas
Faço, desfaço, refaço e... disfarço

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Estreiteza

O lago estava cheio. A água transbordava por suas encostas, como sua felicidade transbordava por seus poros. Tudo era sereno... a paz e o amor reinavam.
Um dia, sem qualquer explicação, a doçura mansa foi evaporando-se e enchendo-a de seu líquido claro.
Por vezes, era tanto e com tamanha força, que escorria de seus olhos. Não mais como o néctar da natureza, mas salgado como a fúria de Netuno.
Sem nada compreender, ela olhava incrédula para a secura a sua volta. Tudo era estreiteza.
Os sentimentos se encolhiam, o absurdo tomava seu lugar, as folhas caiam e os pés sangravam.
O chão se abriu nas fissuras da aridez de tudo.
Sem saber voar, ela caiu de joelhos nas profundezas do desconhecido.
A água a trouxe de volta, velejando aos ventos da sorte. Acordou no salgado das lágrimas de seus olhos que se derramavam sobre a areia fina.
Encheu o mar com a abundância de seu sofrer e o mar a encheu na abundância de seu amar.
O equilíbrio se fez presente.
A gota que um dia fora, hoje resplandecia entre gotas prateadas da lua cheia.
Sentada na areia molhada, sentia a brisa a esvoaçar seus cabelos e a espuma branca envolver seu corpo. Ela ali estava, contida numa miscelânea de plenitudes infinitas.
Tudo era sereno, manso e harmônico nas ondas do lago que se fez pranto e no pranto que se fez mar.




sábado, 26 de dezembro de 2015

Tormenta


Aparecestes assim tão de repente
Como um vendaval em uma tempestade de verão
E derrubastes toda a minha estrutura.
Transformastes meu céu azul
Num cinza repleto de dúvidas.
Mantive minha certeza 
E te contei sobre o meu mundo.
Disse-te que jamais havia sido tão feliz.
Na verdade realmente jamais havia sido tão feliz...
Não te menti
Mas também não te disse a verdade.
Desdobrei a história em mil pedaços
E deixei ao chão para juntares.
Te contei verdades sobre o teu caráter.
Te contei mentiras sobre o meu.
E assim,
Brincando de esconde esconde com o acaso
Protegi-te da tempestade criada por ti
Quando apareceste tão de repente
Como uma tempestade em uma noite de verão...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Desenganos

Ele era o barco, ela a vela.
Ele ventania,
Ela calmaria.
Ele era o arco, ela a sela.
Ele liberdade.
Ela saudade.
Ele era o marco, ela a bela.
Ele tormento.
Ela, lamento.
Ele era o parto, ela o ato.
Ele solidão.
Ela canção.
Ele era o mito, ela o dito.
Ele ninguém.
Ela alguém.
Ele era o corte, ela a sorte.
Ele calmaria.
Ela ventania.
Ele era a solidez, ela a nudez.
Ele saudade.
Ela liberdade.
Ele era o caçador, ela o amor.
Ele, lamento.
Ela tormento.
Ele era a asa, ela a casa.
Ele canção.
Ela solidão.
Ele era a vingança, ela a herança.
Ele alguém.
Ela ninguém...


Os pardais



Sentada na areia fina, com as pernas dobradas e envolvida pelos seus braços, ela sentia a água salgada molhar seus pés.
Olhava o mar escuro, pouco a pouco, dourar-se com os primeiros raios de sol que nasciam no horizonte.
A brisa fria arrepiava sua pele e esvoaçava seus cabelos. Sentia toda a força do universo a lhe envolver.
O cheiro forte da maresia, entrava por suas narinas e alojava-se dentro de si. Nada era mais reconfortante!
Sentiu sua vida e viu o quanto era feliz. Tivera tudo. Perdera algumas. Mas o saldo sempre fora positivo. Sentia-se abençoada.
Nada nem ninguém, nunca pudera lhe tirar a força de guerreira, a calmaria de mulher ou a dignidade de ser humana. Isso lhe pertenceria até o último dia de sua existência terrena. Assim seria!
Na praia deserta ouvia o piar dos pardais, exclusos de beleza e voz. Sentiu-se um deles. Tão majestosos na sua total falta de atrativos. Eram sobreviventes... como ela.
Lágrimas escorreram de seus olhos, na fugaz saudade daqueles que se foram. Por eles teria dado a vida. Os amara de forma integral e incondicional.
Com o dorso da mão, secou uma lágrima e depois outra. Negava, nesse momento, o luto que vivera. A perda era deles e não sua. As carpideiras lamentavam por eles e não por ela. Não mais permitiria a troca de valores.
Levantou-se e, como Narciso, foi olhar seu reflexo na água. Tinha o brilho que só é permitido as pessoas em paz. Nem mesmo as imagens distorcidas e os olhos enevoados a suas costas, poderiam macular sua vida. O tempo passava para eles e regredia para ela.
Perdera tudo que tivera, exceto a honradez. Deixada ao léu, seus filhos e amigos foram sua única base de reconstrução. Essa base forte e segura, fez dos cacos um castelo onde agora ela morava.
Sorriu, onde antes houvera lágrimas, e levantou-se. Deu as costas para a imensidão da água e como uma gota seguiu seu caminho sabendo que tudo volta para o mar. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Espera sem fim


Olho para ti
E tento desvendar toda a tristeza que habitou a tua alma.
Tento encontrar o motivo de toda a bondade que te consome, 
Agora.
E assim, 
No meio de procuras sem fim, 
Pergunto-me,
Inquieta,
Os motivos pelos quais não desististes da vida.
Tua infância difícil,
De lar em lar,
Sentado na beira da janela 
Esperando por aquele que nunca viria.
Uma cena de filme
Ou a realidade que tanto te afligiu.
Com marcas
Cicatrizes que jamais sumirão de tua alma
Vejo a mesma criança assustada de outrora.
Que continua sentada
Em frente à janela
Esperando por aquele que jamais retornará...

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